A queixa chega quase sempre pela escola: ele não presta atenção, vive distraído, não termina nada. Mas há crianças que, no meu consultório, seguem uma conversa longa sem se perder, jogam do começo ao fim e fazem os testes com atenção. A desatenção que parecia estar em tudo parece existir só na sala de aula.
Se o seu filho não consegue se concentrar nas aulas, pode ser TDAH, mas é uma entre várias explicações possíveis. O que ajuda a separá-las é observar onde a dificuldade aparece, desde quando existe e o que já foi tentado.

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Como diferenciar TDAH de outras causas?

Na minha experiência, costuma apontar para TDAH quando a dificuldade aparece em vários ambientes, existe desde cedo, já resistiu a rotinas e ajustes ou se repete na família. Costuma apontar para outro caminho quando aparece só em certos contextos, começou depois de uma mudança de rotina ou de uso de telas, ou melhora quando a tarefa é ajustada.
Nenhum desses sinais fecha um diagnóstico sozinho. Eles levantam hipóteses, e é a avaliação que reúne o olhar da família, da escola e dos testes.

Quando a desatenção está em todo lugar

TDAH é o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, um jeito de o cérebro regular atenção, movimento e impulsos que atrapalha a rotina de forma persistente. Quando é TDAH, a desatenção costuma chegar nítida até no consultório: a criança não sustenta um diálogo, muda de assunto no meio de um teste, interrompe a tarefa para comentar o que acontece na sala.

Os critérios diagnósticos pedem pelo menos seis sintomas de desatenção, ou seis de hiperatividade e impulsividade, em crianças de até 16 anos. Eles devem durar ao menos seis meses, ter começado antes dos 12 anos e aparecer em dois ou mais ambientes. É esse último critério que impede de concluir algo olhando só para a escola.

Quando a atenção some só na aula

Quando a atenção aparece bem fora da sala de aula, o primeiro passo é saber se a queixa vale para todos os professores ou só para algumas matérias. Depois, procuro entender o que está por trás. Os caminhos que mais encontro:

Dislexia

A criança tem muita dificuldade de ler, não acompanha a lousa nem consegue fazer as atividades. Isso se mostra como desinteresse, mas é uma dificuldade específica de leitura, sem relação com inteligência ou esforço.

Telas e rotina desalinhada

Excesso de tela ou rotina bagunçada atrapalham a concentração. O sinal costuma ser que, antes, não havia problema.

Dificuldade específica com o conteúdo

Ela parece desatenta justamente nas matérias em que precisa de mais esforço para entender.

Funções executivas ainda em desenvolvimento

Funções executivas são as habilidades que nos permitem segurar uma informação na cabeça (memória de trabalho), planejar e se organizar. Elas amadurecem com o tempo e com a prática, e uma criança pode estar no meio desse caminho sem ter um transtorno. O que indica transtorno é o impacto, o tempo de duração e o quanto atrapalha a vida da criança, em casa e na escola.

A criança quieta que só aparece no quinto ou no sexto ano

Aqui está a exceção que desmonta a ideia de que TDAH é sempre agitação. Há crianças que sempre se esforçaram muito: ficam horas estudando, se cobram, são perfeccionistas e refazem até ficar bom. Isso funcionava quando havia uma professora só e adultos por perto como apoio.

Na transição do quinto para o sexto ano, a mão se solta. Aparecem mais disciplinas, chega muita informação e ela não consegue conduzir tudo sozinha. Os sinais já existiam, mas eram compensados com esforço, e agora ficam visíveis. Por isso uma criança com TDAH pode parecer ter dificuldade “só na escola”. A literatura aponta na mesma direção: em quem tem predomínio de desatenção, o diagnóstico costuma vir mais tarde, às vezes depois da adolescência.

Três perguntas que ajudam a separar os cenários

Na anamnese, a conversa detalhada com a família sobre a história da criança, três perguntas levantam hipóteses:

Desde quando?

Se a queixa existe desde o primeiro ano e a criança mal tem acesso a telas, a explicação não é só rotina. Se as notas sempre foram boas e agora estão caindo, a pergunta passa a ser o que mudou.

O que já foi tentado?

Uma rotina estabelecida há muito tempo, outros profissionais já consultados e coisas diferentes testadas sem resultado podem ser um sinal de TDAH.

Quem mais na família?

Se o pai ou a mãe diz “eu também era assim na escola”, vale levar em conta, porque o TDAH tem base genética. Estudos com gêmeos estimam que os fatores genéticos explicam cerca de 76% da variação nas características do TDAH, embora as estimativas mudem conforme quem avalia e o instrumento usado.

O que fazer a partir daqui

  1. Anote onde e quando acontece. Em casa, na escola, em todas as matérias ou em algumas, nas tarefas longas ou também nas curtas.

  2. Converse com a escola. Pergunte se a queixa é de todos os professores e desde quando eles observam.

  3. Reconstrua a história. Desde quando existe, o que mudou na rotina e no uso de telas, o que já foi tentado e se alguém na família teve as mesmas dificuldades.

  4. Observe onde a atenção funciona. O que a criança sustenta sem ninguém pedir, em que situações ela consegue se concentrar bem.

  5. Procure avaliação se persistir ou pesar. Se a dificuldade dura, atrapalha a vida da criança ou não melhora com ajustes na rotina e nas tarefas, a avaliação neuropsicopedagógica ajuda a separar as hipóteses. Quando os sinais são sutis demais para um diagnóstico, a hipótese pode ficar no radar, e acompanhamos como a criança responde conforme as exigências aumentam.


Perguntas frequentes

Meu filho não consegue se concentrar nas aulas. Isso significa que ele tem TDAH?

Não necessariamente. A mesma queixa pode vir de dislexia, dificuldade com o conteúdo, rotina e telas ou funções executivas ainda em desenvolvimento. O TDAH só é considerado quando os sinais são persistentes, mais intensos que o esperado para a idade e presentes em mais de um ambiente.

Meu filho presta atenção em jogos e conversas, mas não na aula. Pode ser TDAH?

Pode, mas é preciso investigar. Quando a atenção se sustenta em outros contextos, procuro entender o que acontece na aula: o tipo de tarefa, a forma como o conteúdo é conduzido ou uma dificuldade que a criança esconde.

Quais são os sinais de TDAH na escola?

Entre os sinais de desatenção estão errar por descuido nas atividades, perder com frequência o material necessário para as tarefas e ter dificuldade de terminar o que começou. Entre os de hiperatividade e impulsividade estão levantar da cadeira quando deveria ficar sentado, estar sempre “a mil”, interromper os outros e responder antes de a pergunta terminar. Um sinal isolado não basta: o que conta é o conjunto, a duração e a presença em mais de um ambiente.


Filho não consegue se concentrar nas aulas: o que levar da leitura

Quando um filho não consegue se concentrar nas aulas, a pergunta mais útil não é “ele tem TDAH?”, mas onde a dificuldade aparece, desde quando e o que já foi tentado, porque é essa comparação que separa TDAH de dislexia, dificuldade com o conteúdo, rotina e funções executivas ainda em desenvolvimento. Para conversar sobre uma avaliação neuropsicopedagógica, agende pelo site.